s bosques, seria
estúpido demais para fugir.
- Não seria nada - Grenn insistiu. - Fugiria mais
depressa que você - e parou de repente, riscando os
olhos ao ver o sorriso de Pyp e ao perceber o que
acabara de dizer. Seu grosso pescoço ficou vermelho-
escuro. Jon os deixou ali discutindo e voltou ao
armeiro, pendurou a espada e tirou a armadura
deformada.
A vida em Castelo Negro seguia certos padrões; as
manhãs eram dedicadas à esgrima, e as tardes, ao
trabalho. Os irmãos negros atribuíam aos novos
recrutas muitas tarefas diferentes, para ver o que
sabiam fazer. Jon adorava as raras tardes em que era
enviado para a floresta com Fantasma a fim de
trazer caça para a mesa do Senhor Comandante, mas
para cada dia passado a caçar, doze eram de Donal
Noye, no armeiro, girando a roda de amolar
enquanto o ferreiro de um braço só afiava machados
cegos pelo uso, ou manejando o fole enquanto Noye
batia o metal ie uma nova espada. Nos outros dias,
distribuía mensagens, montava guarda, limpava
estábulos, colocava penas nas setas, dava assistência
a Meistre Aemon com suas aves ou a Bowen Marsh
com suas contas e inventários.
Naquela tarde, o comandante da guarda o enviou
para a gaiola do guindaste com quatro barris de
pedra recém-esmagada, para que espalhasse cascalho
sobre os caminhos gelados do topo da Muralha. Era
um trabalho solitário e aborrecido, mesmo com
Fantasma lhe fazendo companhia, mas Jon descobriu
que não se importava. Num dia claro, podia-se ver
metade do mundo do topo da Muralha, e o ar estava
sempre frio e tonificante. Ali podia pensar, e deu por
si pensando em Samwell Tarly... e, estranhamente,
em Tyrion Lannister. Gostaria de saber o que Tyrion
faria com o rapaz gordo. A maioria dos homens mais
depressa nega uma verdade dura do que a enfrenta, dissera-
lhe o anão com um sorriso. O mundo estava cheio de
covardes que fingiam ser heróis; era preciso uma
singular forma de coragem para se admitir covarde,
como fizera Samwell Tarly.
O ombro machucado fazia com que o trabalho
avançasse lentamente. A tarde já chegava ao fim
quando Jon terminou de encher os caminhos de
cascalho. Deixou-se ficar lá em cima para ver o sol se
pôr, colorindo o céu ocidental com a cor do sangue.
Por fim, enquanto o ocaso caía sobre o norte, Jon
rolou os barris vazios de volta à gaiola e fez sinal aos
homens do guindaste para que o baixassem.
A refeição da noite tinha quase acabado quando ele e
Fantasma chegaram à sala comum. Um grupo de
irmãos negros jogava dados sob o efeito do vinho
quente perto do fogo. Seus amigos, dando risada,
encontravam-se no banco mais próximo da parede
oeste. Pyp estava no meio de uma história. O
orelhudo filho do pantomimeiro era um mentiroso
nato, possuía cem vozes diferentes, e vivia suas
histórias mais que as contava, representando todos
os papéis à medida que iam surgindo, num momento
um rei e no seguinte um criador de porcos. Quando o
personagem era uma criada de cervejaria ou uma
princesa virgem, usava uma aguda voz de falsete que
levava todos às lágrimas com as gargalhadas que
eram incapazes de evitar, e seus eunucos eram
sempre caricaturas fantasmagóricamente fiéis de Sor
Alliser. Jon tirava tanto prazer das palhaçadas de
Pyp como qualquer outro, mas naquela noite
afastou-se e, em vez de se juntar aos amigos, dirigiu-
se para a ponta do banco, onde Samwell Tarly estava
sentado sozinho, tão longe dos outros como podia.
Terminava a última das tortas de porco que os
cozinheiros tinham servido no jantar quando Jon
sentou-se à sua frente. Os olhos do gordo
esbugalharam-se ao ver Fantasma.
- Isto é um lobo?
- Um lobo gigante - Jon respondeu. - Chama-se
Fantasma. O lobo gigante é o símbolo da Casa do
meu pai.
- O nosso é um caçador andante - disse Samwell
Tarly.
- Gosta de caçar?
O gordo estremeceu.
- Detesto - parecia outra vez prestes a chorar.
- Que se passa agora? - perguntou-lhe Jon. - Por que
está sempre tão assustado?
Sam fixou os olhos no resto de sua torta de porco e
abanou a cabeça débilmente, assustado demais até
para falar. Um estrondo de gargalhadas encheu o
salão. Jon ouviu Pyp guinchando com voz aguda.
Pôs-se em pé.
- Vamos lá para fora.
A gorda cara redonda olhou-o com suspeita.
- Por quê? Que vamos fazer lá fora?
- Conversar - disse Jon. - Já viu a Muralha?
- Sou gordo, não sou cego - Samwell Tarly retrucou. -
Claro que a vi, tem duzentos metros de altura - mas
levantou-se assim mesmo, enrolou um manto
debruado de peles em volta dos ombros e saiu da sala
comum atrás de Jon, ainda desconfiado, como se
suspeitasse de que algum truque cruel o esperava na
noite. Fantasma caminhou ao lado deles.
- Nunca pensei que fosse assim - Sam disse enquanto
caminhavam, com as palavras transformando-se em
vapor no ar frio. Já bufava e arquejava, tentando
acompanhar Jon. - Os edifícios estão todos ruindo, e
é tão... tão...
- Frio? - uma dura geada caía sobre o castelo, e Jon
ouvia o suave ranger de ervas cinzentas sob suas
botas.
Sam confirmou com a cabeça, ostentando uma
expressão infeliz.
- Detesto o frio -